Lembrando da documenta 14: Atenas

Nos arredores da história

Jota Mombaça acompanhou em Atenas os diversos eventos que circundaram a programação da documenta 14. Um deles foi a exposição conduzida pela iniciativa “Artistas em risco”.

A primeira delas é Wonderland (País das maravilhas, 2016), de Erkan Özgen, um curta-metragem que traz uma criança surda de 13 anos chamada Muhammed falando sobre as cenas necropolíticas da guerra civil na Síria que ele presenciou em Kobanî, a pequena vila no norte do país onde ele vivia com sua família. Sem a faculdade da escuta ou da fala, o relato que Muhammed faz dos horrores que ele testemunhou rompe a política da voz que define o regime histórico dominante. Como nesse caso a história de violência é contada por meio de uma linguagem performática que traz a totalidade do corpo da criança para essa cena de escrita histórica, a obra vai até o limite mesmo da expressividade de forma a reconhecer a mediação de Muhammed da história como um procedimento de inventariação que desafia radicalmente a própria noção de inventário.

A segunda obra é 9 days from my window in Aleppo (Nove dias da minha janela em Aleppo, 2012), de Issa Touma. Uma das primeiras frases ditas pela voz de Touma no filme é: “Hoje é o primeiro dia da guerra na minha rua”. Então do dia um ao dia nove, munido de sua câmera, o artista testemunha os eventos de uma guerra vista da sua janela, registrando o movimento das forças armadas de resistência, os processos de construção e desconstrução de um posto de controle improvisado, o deslocamento de alguns vizinhos em fuga, a permanência resiliente de outros… O filme se apresenta como uma afirmação bastante literal e crua de como a guerra inscreve sua violência na vida diária de certa comunidade ou um grupo de pessoas, mas ao mesmo tempo incorpora seus próprios limites, como está ilustrado em uma das últimas frases ditas por Touma: “Isso vai continuar por um longo tempo”. E depois: “Não quero filmar a guerra por nem mais um minuto”.

Issa Touma – 9 Days from My Window in Aleppo (Nove dias da minha janela em Aleppo). Produção: Paradox

A recusa de Issa Touma em “não filmar a guerra por nem mais um minuto” encontra, através da articulação curatorial da exposição, o reencenamento parcial de Muhammed sobre suas memórias da violência, criando, assim, um espaço compartilhado de opacidade no qual a escrita da história torna-se algo imediatamente implicado nas suas próprias sombras; um tipo de movimento roto que consiste na criação de fendas por onde é possível proliferar relatos não hegemônicos da História. Dessa forma o AR Pavilion insinua uma das muitas respostas factíveis às questões emergentes do Barco da História da documenta, apesar de não oferecer a promessa de uma históricidade que tudo abarca: para se juntar a esse arriscado movimento é crucial pular do barco da história e nadar no mar das narrativas que correm em seus arredores.

 

* Essa foto foi tirada durante uma das apresentações, quando Nelli Kambouri falava sobre as relações entre os contêineres do porto de Piraeus e a reorganização de projetos neoliberais no capitalismo global.

Jota Mombaça é uma bicha não binária, nascida e criada no Nordeste do Brasil, que escreve, performa e faz estudos acadêmicos em torno das relações entre monstruosidade e humanidade, anticolonialidade, redistribuição da violência, ficção visionária, fim do mundo e tensões envolvendo ética, estética, arte e política na produção de conhecimento do Sul-do-Sul global. Seus trabalhos atuais são a colaboração com a Oficina de Imaginação Política (São Paulo) e a residência artística com o CAPACETE 2017 na documenta (Atenas/Kassel).

Tradução do inglês por Heitor Augusto.

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