A África é o futuro

Nicolas Premier está reconsiderando narrativas visuais

“África é o futuro” desafia radicalmente as formas pelas quais o passado, o presente e o futuro do continente são descritos, e a maneira pela qual sua relação com o mundo é retratada.

Africa is the Future (África é o futuro), um filme em quatro partes, contém o arquivo de Premier intercalado com o dispositivo de design de um portal que mistura uma grade azul com um fundo negro, reminiscência da capa do álbum techno Wireless Internet, lançado em 2002 pela ARPANET, que representa uma interface gráfica pioneira (GUI),[2] e a cor da superfície do oceano quando ela colapsa em seu leito. O filme começa com a voz profunda do rapper Mike Ladd descrevendo como, em 1532, o navio Misericordia partiu carregando 109 escravos da ilha de São Tomé para o castelo de Elmina, à época um forte português de escravos. A história do Misericordia é conhecida como a primeira rebelião bem-sucedida de escravos – todos os captores, exceto o capitão e dois marinheiros, foram mortos. Embora não haja registros sobre o que houve com o navio e aqueles que se rebelaram, historiadores acreditam que o Misericordia tenha afundado, porque a maioria das pessoas trazidas como escravas não sabiam como navegar no oceano aberto.[3] Ladd narra: “Eles ficaram aterrorizados ao ver que o navio havia desaparecido. Subitamente, o oceano estava negro.” Rebeliões bem-sucedidas durante a Passagem do Meio foram mais comuns do que pensamos, tendo sido frequentemente ocultadas e erradicadas dos registros para fazer com que os capitães parecessem mais competentes. Mais uma vez, a narrativa branca e ocidental prevalece. Mas, e se os historiadores destacassem a determinação e o heroísmo dos escravizados? Como essa história se pareceria?

Um navio contemporâneo de migrantes negros seguido por imagens ampliadas da superfície do sol, lava jorrando do mar, arranha-céus à noite, máscaras tradicionais africanas, uma serva negra retratada em uma pintura europeia, um jovem menino negro navegando através de um globo suspenso no céu — balas de armas, livros, orações, óleo. Estes são os tipos de imagens vistas na montagem do primeiro movimento do filme de Premier. África é o futuro traça então a história da escravidão e de suas vidas posteriores em uma configuração triangular. No segundo movimento, a rede atlântica aparece mais explicitamente: da Europa à África, e de lá para as Américas. Minerais, mineração, estradas de ferro, extração e movimentação de matérias-primas e vidas humanas para diferentes continentes, belas faces negras, ondas de água do oceano elevadas à superfície. O terceiro movimento introduz nossa infraestrutura: satélites, redes elétricas, grades de plantações, placas-mãe, as Torres Gêmeas colapsando. Em seguida, as ondas oceânicas fluem ao contrário, assim como os protagonistas negros. Um capitão português angustiado grita do meio do oceano que seu navio está em apuros: “O mar está escuro! A água está escura!” A voz da escritora e acadêmica Christina Sharpe é ouvida descrevendo o tempo de residência debaixo d’água[4]. Seu trabalho de estreia, que acompanhou vidas posteriores à escravidão transatlântica, é o passado em curso. O quarto e último movimento vai na horizontal. Há uma relação clara entre o panorama da câmera e imagens de pessoas e narrativas avançando, avançando e depois girando. O oceano está calmo agora, e um eclipse solar se aproxima: personagens revolucionárias, crianças pequenas, extraterrestres, sinais de amor e esperança radicais.

África é o Futuro mapeia muitas histórias atlânticas da Negritude através de um dilúvio de imagens que progride com o cosmograma Congo – um símbolo-chave na cultura congolesa – como um princípio norteador. Este cosmograma pré-colonial e pré-cristão representa a existência perene, onde a morte é um curso normalizado de mudança. As imagens do filme são familiares, mesmo que nunca tenhamos visto essa versão exata delas, porque foram fixadas formalmente em nossa memória cultural e recicladas várias vezes. Lançar um trabalho cinematográfico como este recoloca essas imagens em circulação com uma nova gênese, e nos força a considerar todas as imagens que ainda precisam ser tomadas ou ainda não foram descobertas.

Alaina Claire Feldman é diretora /curadora da Mishkin Gallery no Baruch College, City University de Nova York (CUNY).

[1] Sylvia Wynter, “Unsettling the Coloniality of Being/Power/Truth/Freedom: Towards the Human, After Man, Its Overrepresentation–An Argument” CR: The New Centennial Review 3, no. 3 (2003): 257–337.
[2] American Artist, ”Black Gooey Universe.” Unbag Winter (2018). Acessado em 12/08/2020: https://unbag.net/end/black-gooey-universe
[3] Eric Robert Taylor, “If We Must Die: Shipboard Insurrections in the Era of the Atlantic Slave Trade” (Baton Rouge: LSU Press, 2009), 123.
[4] Christina Sharpe, “In the Wake: On Blackness and Being” (Durham: Duke University Press, 2016).

Tradução: Cláudio Andrade

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