Conversa com

Biophillick: conectando ancestralidades através de tecnologias

Indicado para o prêmio Pipa em 2023, Biophillick é um artista que põe em diálogo tecnologia, natureza e espiritualidade. Suas obras permeiam múltiplas linguagens para materializar um universo transcendental, incluindo máscaras artesanais e música eletrônica. O artista resgata tradições para imaginar futuros ancestrais.

C&AL: E a arquitetura foi o seu ponto de partida para o caminho artístico?

B: Sim! Antes disso, tive aulas de dança, teatro, música e pintura. Mas foi na arquitetura que a minha criatividade explodiu. Os meus professores falavam que o arquiteto precisa se inspirar em outras áreas artísticas para ter riqueza de sensibilidade. E aí levava os meus projetos de arquitetura conceitual para galerias e museus, fazia colaborações com artistas e performers. Vamos sair desse paradigma de que o arquiteto só constrói casas, né?

C&AL: Você fala que a Cidade do México tem muitos universos dentro dela. Qual foi a influência dessa cidade na sua trajetória?

B: É uma cultura muito ampla e rica. Então, dá para ver esses contrastes. São várias camadas de história, desde o pré-hispânico, às ruínas e os vestígios astecas. Depois, as construções e os bairros com uma arquitetura mais colonial e europeia. E, também, o mundo moderno e contemporâneo. Por exemplo, o Zócalo, que é a parte central da cidade, tem todas essas camadas de arquitetura e de culturas coexistindo. Perto da minha casa, tinha vestígios de uma pirâmide circular. Eu ia lá para desenhar, ficar em meditação e me reconectar com a natureza. E são muitas cores, alegria. Tudo isso permeia o meu trabalho, essa mistura de tempos, que é o ancestral e o contemporâneo.

C&AL: Essa mistura é muito perceptível no seu trabalho. Você une elementos analógicos e digitais, traz referências ancestrais e um olhar para o futuro. Como acontece essa junção?

B: O meu projeto final na faculdade de arquitetura foi a cidade do futuro no cinema, uma visão biofuturista apresentada em realidade virtual com projeções 3D. E isso para vislumbrar um futuro em harmonia com a natureza e sair, justamente, do concreto cinza, e pensar em materiais vivos, autossustentáveis. Quando cheguei no Brasil, descobri o conceito de futuro ancestral, do Ailton Krenak, e isso fez todo o sentido. O resgate indígena é muito forte aqui no Brasil e isso me levou a pensar também numa cocriação, não numa separação, porque esses tempos não devem estar em conflito. Muita memória foi apagada então precisamos, por meio da imaginação, criar justamente esses outros futuros possíveis para enriquecer o nosso presente. A imaginação, como falava o escritor mexicano Octavio Paz, vem para resgatar toda essa cultura ancestral.

C&AL: No Brasil, você se reconheceu enquanto uma pessoa indígena, num processo de retomada.

B: Sim, já tinha uma conexão com a minha cultura no México, mas isso ficou mais vivo aqui no Brasil. Tem uma efervescência das culturas indígenas na moda, na arte, na música, em todos os espaços. Quando morei em Brasília, fiz contato com os povos Kariri-Xocó, que moram numa reserva chamada Santuário dos Pajés, e trabalhei em vários projetos de Cultura Viva, para promover a cultura deles. Tive a minha primeira consagração de ayahuasca com o Álvaro Tukano, que já foi diretor do Memorial dos Povos Indígenas. Também estudei na escola de moda Éwá Poranga, com uma perspectiva decolonial e afro-indígena. Dentro da música, eu já usava instrumentos indígenas e isso agora está se misturando com os rituais, com a cultura do México, com várias cerimônias de medicina… Tudo como uma busca espiritual.

Biophillick é artista multimídia indígena-queer mexicano, arquiteto, designer de moda e músico eletrônico experimental. Pesquisa sobre ancestralidade, natureza, espiritualidade, tecnologia e futuro. Desenvolve criações híbridas entre o analógico-natural e o tecnológico-digital, atravessando as artes audiovisuais, a moda, a arquitetura digital, as performances ritualísticas, os concertos imersivos e as exposições multimídia. 



Gabriela Titon é jornalista e artista visual, com interesse especial em arte têxtil, colagem, processos expressivos e práticas documentais. É criadora da Nervo Arte, plataforma de mídia cultural sobre arte contemporânea e suas conexões, focada no cenário local de Curitiba/PR, Brasil.

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