Durante mais de três décadas, a chamada arte afro-brasileira – ou seja, parte do acervo de obras de artistas negros dos séculos 18 e 19, de pré-modernistas e modernistas (pós-1888 até a década de 1950) e de contemporâneos (da década de 1960 até nossos dias) – esteve ligada à pessoa de Emanoel Araújo, responsável por apresentar esses nomes, democratizar o acesso e salvaguardar suas memórias e feitos artísticos.
A atitude sistemática de valorização por parte de Araújo garantiu que Mestre Valentim, José Teófilo de Jesus, Estevão Silva, os irmãos Artur e João Timóteo da Costa, Wilson Tibério, Rubem Valentim, Mestre Didi, Yedamaria, Alexandre Ignácio Alves, Edival Ramosa, Bauer Sá e tantos outros artistas se tornassem conhecidos por um público maior. Isso ocorreu por meio da expressiva quantidade de exposições, seguidas de publicações incontornáveis, entre elas A mão afro-brasileira (1988) e A nova mão afro-brasileira (2013), Negro de corpo e alma (2000) e Museu AfroBrasil: um conceito em perspectiva (2006), além da republicação, na íntegra, de textos clássicos sobre as artes negras brasileiras como As bellas-artes nos colonos pretos no Brazil: a esculptura (1904), de Raimundo Nina Rodrigues, ou O negro brasileiro nas artes plásticas, de Clarival do Prado Valadares (1968).
O que veio antes da visibilidade?
O atual, mas protelado interesse institucional pelas autorias negras – no teatro, cinema e nas artes visuais em particular – tem movimentado a cena cultural, especialmente em São Paulo. Apesar das históricas barreiras contra a mobilidade e ascensão social de pessoas negras, parece haver, finalmente, um reconhecimento da importância dos artistas negros no Brasil. Essa atração institucional – da qual a exposição Histórias afro-atlânticas (2018) foi o ponto alto, em função da apresentação de um amplo espectro da produção plástica no contexto atlântico – deve nos deixar alertas para os riscos da “comodização” da arte negra, que passa a circular embalada por quem detém maiores recursos. Com efeito, lembremos, grandes somas investidas terminam por ocultar o trabalho social necessário anterior ao atual quadro de visibilidade.