Conversa com Anita Ekman

Uma arqueologia da questão afro-indígena

Em suas performances, a brasileira Anita Ekman recupera a história da arte rupestre e pré-colombiana para decolonizar o olhar sobre o presente.

C&A: “Tupi Valongo” também parece conectar passado, presente e futuro quando mostra a Serra da Capivara (pré-história), o Valongo (o colonial) e as imagens de Marielle Franco (vereadora executada no Rio de Janeiro em 2018 pela sua militância em prol dos direitos humanos). Foi essa a ideia, uma grande costura entre os tempos e os espaços?

AE: O geógrafo Milton Santos me aclara muito as ideias quando fala que “espaço é acumulação desigual de tempo”. Foi na Serra da Capivara que foram encontrados vestígios de fogueira que datam de 50 mil anos e que levaram Niède Guidon a criar a teoria de que foi uma migração vinda da África, o que contradiz a versão até agora aceita de que a primeira migração do homem americano teria vindo da Ásia. Para mim, decolonizar é isso, é se conectar com essas histórias antigas, profundas e presentes. É como diz o título de um livro de Celso Borges: “O futuro tem um coração antigo”. A performance Tupi Valongo: Cemitério dos Pretos Novos e dos Velhos Índios traz para a cena essas várias camadas, o espaço e a acumulação desigual de tempos. E isso para mim é muito forte, a ideia de que está tudo ali: o cesto feito pelos guaranis, a presença de Hugo Germano, que é da Favela do Cantagalo (Rio de Janeiro), o uso da técnica milenar dos carimbos para a pintura corporal, as máscaras de Nzo Oula, refugiado da Costa do Marfim da etnia Gouro, especialista em máscaras.

C&AL: Pensando na questão do lugar de fala e da representatividade: como você se enxerga no papel de artista falando da questão indígena sem ser indígena?

AE: O meu nome em guarani é jaxuca, é a que aponta a direção, a que leva a caminhada. É assim que encaro meu lugar nessa história, como um lugar agregador. Tupi Valongo não é uma obra minha, eu sou só a que reúne. Estou aqui, mas essa é uma obra da Sandra Benites, que recita Nhandecy ete; também da Lidia Pankararu, que fez a música; do Oula, que fez as máscaras. O meu lugar ali não é de representação de uma mulher indígena: aqueles desenhos dos carimbos não são indígenas, são meus. Recupero uma técnica que é muito antiga, e crio a partir dela. Quero esse caminho aberto para todo mundo trabalhar junto no tenondé porã, essa ideia de que só é belo se todo mundo chega junto.

C&AL: Podemos ver tanto em “Tupi Valongo” como em “Vagina: caverna da terra”, que seus trabalhos enfocam também o protagonismo feminino na história da arte. Como você trata esse aspecto?

AE: Boa parte da nossa visão fragmentada sobre a questão afro-indígena vem da necessidade profunda de rever o protagonismo das mulheres na história. Porque se a maior parte dos escravos chegados da África eram homens, está claro que no nosso sangue corre o sangue de mulheres indígenas que foram violentadas, domesticadas. Mas essas mulheres foram apagadas da história. Então, quando proponho uma performance que convida as mulheres a pintarem seus corpos com carimbos e repetirem as posições que encontramos nas pinturas rupestres, estou convidando para entendermos o nosso lugar nessa história da arte decolonizada. Quando uso o ocre, que é uma argila colorida pelo dióxido de ferro, estou restabelecendo conexões com o sangue, com esse elemento que dá vida e morte. Lindia [apelido de Joselma Santos], uma das mulheres que participou da performance Ocre, faz parte do grupo de capoeira de São Raimundo Nonato e é uma índia da nação Pimenteira, que foi quase dizimada. É o cruzamento de várias histórias surgindo na superfície da pele como forças do passado.

C&AL: Esse envolvimento com o território, com os materiais disponíveis na natureza, parece ser o coração da sua prática artística, não?

AE: Ao usar essas tecnologias – o carimbo, o ocre –, que são os mesmos materiais usados há milhares de anos, antes da colonização, é como se eu conseguisse me conectar com o que eles buscaram. Quando falamos de decolonização, estamos falando de território, de estruturas de poder que foram elaboradas e que continuam reverberando com uma força atroz. Os lugares onde as pessoas se reuniam para fazer esses grandes rituais eram espaços dotados de uma força. É por isso a Serra da Capivara tem essa concentração tão imensa de pinturas, porque muita gente se deslocava para lá. Então, quando proponho uma performance – como é chamada no mundo dos juruás [“brancos”, em tupi], mas que para mim fica no lugar do ritual – ali, ela está necessariamente ligada à força deste território. Estamos trabalhando em um projeto de uma residência artística dentro do Parque Nacional da Serra da Capivara, onde possamos reunir artistas e pensadores indígenas de todo o mundo neste território sagrado.

Anita Ekman é artista visual e performática, ilustradora e pesquisadora de artes ameríndias e afro-brasileiras.

Lorena Vicini é editora, pesquisadora e gestora cultural. Coordenou os projetos “Episódios do Sul” e “Ecos do Atlântico Sul” pelo Goethe-Institut São Paulo.

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