Conversa com Elle Pérez

Corpos destemidos e identidades na fotografia de Elle Pérez

As fotografias de Elle Pérez são impressionantes e misteriosas, elas retratam pessoas e lugares de mundos bem diferentes. A fotógrafa do Bronx, Nova York, conversou com Nan Collymore para a Contemporary And (C&) América Latina sobre o olhar do amor, a fragmentação do corpo e a identidade em suas fotografias.

No momento, estou trabalhando em algumas imagens novas, do fim de semana passado. Há algo na maneira como o enquadramento estreito interage com a figura que é familiar, como nas imagens de meu parceiro, Ian, que fotografo colaborativamente, e também com amigos íntimos. Com o tempo, eles se tornam bem familiares. Fiz uma imagem de Ian que não exibi: há um arco que tem uma composição circular, e parte do círculo se completa fora do enquadramento; por causa do jeito que eu o contorno, ele circula por fora e em volta de uma forma que acho dinâmica e nunca fiz uma imagem como aquela antes. Acho realmente divertido fazer isso, descobrir maneiras diferentes de representar diferentes partes do corpo.

C&AL: Pode falar mais sobre a fragmentação do corpo em seus trabalhos de fotografia e vídeo?

EP: Acho que isso surge da forma como você olha para alguém que ama. Primeiro, quando as pessoas são novas para você, e depois a forma como você olha para elas quando já as conhece por algum tempo. Existe algo em ver uma pessoa plenamente no início e então, quando você passa a conhecê-las por um tempo, elas quase que se transformam num holograma, você interage com elas, capta essas linhas, não as vê necessariamente como realmente são, a menos que não as tenha visto por um tempo. Isso acontece comigo a maioria das vezes com meus pais. A cada quatro ou seis meses, quando os vejo de novo, sou realmente capaz de olhar para eles. No começo do dia, consigo ver como envelheceram, mas, no fim do dia, já voltei a enxergá-los como rostos familiares. A fotografia pode realmente facilitar a ideia de ver plenamente, por causa de como pode se preocupar com detalhes precisos.

C&AL: As imagens são tão privadas, no caso do mamilo de Ian, ele é anatômico, histórico e ligado ao gênero; mas talvez um mamilo nunca seja apenas um mamilo.

EP: Acabo de terminar a ler King Leopold’s Ghost (O fantasma do rei Leopoldo), de Adam Hochschild, sobre as atrocidades cometidas pelo rei da Bélgica no Estado Livre do Congo. Achei interessante ver como a fotografia, especificamente a de pessoas aterrorizadas e seus corpos mutilados, era utilizada por quem lutava contra as atrocidade, e como outros utilizavam fotografias da paisagem exuberante e retratos arrumadinhos para criar propaganda pró-imperial. Também penso sobre quantas imagens de corpos têm sido feitas com o propósito de subjugar as pessoas. A relação da história com as imagens contemporâneas é o que busco alcançar, tendo plena consciência e, de certa forma, controle sobre minha obra.

Pensando novamente sobre o mamilo de meu parceiro e onde ele está localizado numa história mais ampla de imagens, lembro de ter visto o registro de tumores cerebrais do neurocirurgião Harvey Cushing, enquanto estava em Yale. O registro contém entre dez mil e quinze mil negativos de fotos de pacientes de tumor cerebral antes e depois da cirurgia. São retratos vulneráveis e absolutamente surpreendentes. As imagens são esteticamente belas e têm uma tensão desestabilizadora, porque você sabe que estão sendo feitas para o propósito pseudocientífico de documentar deformidades. Então, quando faço essa imagem do amado mamilo de meu parceiro, que para ele representa uma afirmação de si mesmo, também tenho o desejo pessoal de um dia ter as mesmas marcas para mim mesma, como resultado de minha própria cirurgia de alto nível, estou interessada em como isso perturba e flerta com a complicada história das imagens.

C&AL: Como você investiga sua própria identidade em sua obra?

Muitas das narrativas da mídia sobre o furacão em Porto Rico falavam sobre conseguir ajuda o mais cedo possível. Era um uso estratégico de um certo tipo de narrativa. É como o que Gayatri Spivak diz sobre “essencialismo estratégico”, e como à vezes é politicamente útil apoiar-se em mitos essenciais para realizar algo pelo mero senso de realização; não usá-los como uma verdade, mas para ajudar a conseguir algo. A cidadania porto-riquenha é problemática e desperta sentimentos compactados sobre o que seja cidadania.

Há uma oscilação eterna entre essas identidades, elas são as mesmas hoje e não sei o que serei daqui a três anos. Passei a apreciar muito o e em vez do ou. Esse espaço é como a identidade nasce e uma forma de continuar expansiva e, ao mesmo tempo, reconhecer que há alguns fatos sobre minha experiência no mundo e não quero agir como se eles não existissem, pois existem.

Elle Pérez é artista do Bronx, Nova York, leciona fotografia na Universidade Harvard e é decana da Escola Skowhegan de Pintura e Escultura. A obra de Pérez ficará exposta no MoMA PS1 até 3 de setembro de 2018.

Nan Collymore é escritora e artista britânica, radicada na Califórnia.

Traduzido do inglês por Renata Ribeiro da Silva.

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