Afterlives of History

As Temporalidades Sobrepostas de Cabo Verde Emergem na Obra de César Schofield Cardoso

Ana Nolasco mergulha na obra de César Schofield Cardoso, analisando o passado colonial de Cabo Verde, a memória e o impacto do capitalismo global na identidade.

O passado colonial do país envolveu a supressão da expressão artística, e apenas após a Independência, em 1975, surgiram esforços para construir uma arte verdadeiramente cabo-verdiana. Tais esforços foram impulsionados pela estratégia de reafricanização promovida pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. No entanto, nos últimos anos, o discurso da “crioulidade” tem ganhado força, impulsionado pela expansão do mercado e pela mobilidade social ascendente. Essa identidade crioula, que remonta ao movimento em torno da revista literária Claridade (fundada em 1936), posiciona Cabo Verde como como mediador entre as culturas europeia e africana, ou seja, uma narrativa que reatualiza ideologias racistas do século XIX. Schofield Cardoso critica essa adoção de paradigmas culturais externos em obras como a instalação em vídeo Repúblika (2014), que aborda o legado político do líder anticolonial Amílcar Cabral, além de questões abrangentes como imigração e exploração de recursos em Cabo Verde.

A memória ocupa um lugar central na prática artística de Schofield Cardoso, que frequentemente justapõe passado e futuro, nos convidando a repensar histórias esquecidas e sua relevância nas lutas contemporâneas. A série Rust (2017), por exemplo, trata da amnésia colonial, enquanto Beton (2017) e Espaços Vacilantes (2019) investigam como as estratégias do capitalismo global moldaram a identidade cabo-verdiana.

Parte do projeto A Glimmer of Freedom, curado por Márcia Bruno no antigo campo penal de Tarrafal em 2017, a série Rust é composta por três instalações multimídia criadas para um local específico: Surrounding Seas, Perpetual Cycle e Hard Water. Em Surrounding Seas, projeções, sons e fotografias criam um ambiente imersivo, evocando memórias de sobrevivência e da fome de 1947–48. Perpetual Cycle contrapõe imagens coloniais de trabalho forçado a cenas contemporâneas da labuta. Ao fazer isto, a obra questiona a implacável visão portuguesa que atribui a Cabo Verde o mito colonial de nação genuinamente multirracial. Já Hard Water, com galões iluminados e uma instalação sonora, aborda a luta diária de mulheres cabo-verdianas por acesso à água.

As três instalações mapeiam desafios históricos e contemporâneos interconectados da nação cabo-verdiana: a luta cotidiana da população racializada pela subsistência em meio ao isolamento geográfico e à aridez ambiental, agravados pela exploração violenta dos recursos naturais pelos mais poderosos. A evocação de momentos históricos feita por Schofield Cardoso se alinha à teoria da “ideologização da memória” de Paul Ricoeur, que discute como a amnésia coletiva é manipulada por sistemas de poder e deve ser combatida por meio da revisão e reescrita da história. Ondas quebrando, fotografias em tons sépia e orações murmuradas em Surrounding Sea reativam memórias arquivadas, confrontando-nos com as camadas temporais sobrepostas de Cabo Verde.

A reativação de memórias traumáticas transmitidas por gerações em Rust se dá ao envolver os espectadores em uma experiência de camadas sensoriais e emocionais, como nas rochas que servem de superfície para projeções em Surrounding Seas e nos galões iluminados em Hard Water.

Exibido com a série Espaços Vacilantes na Galeria ATC, em Tenerife, em 2023, Beton contrasta as aspirações da modernidade com as duras realidades do “progresso”. Desafiando a linearidade da temporalidade neoliberal, o vídeo justapõe imagens de construções de concreto com momentos contemplativos de trabalhadores. O concreto onipresente simboliza uma modernidade europeia desconectada da realidade cabo-verdiana, enquanto o ritmo pausado dos trabalhadores espelha uma rejeição à eficiência capitalista.

Em Espaços Vacilantes, o artista apresenta fotografias duras e descontextualizadas de edifícios inacabados ou precariamente habitados no Bairro da Cidadela, em Praia, capital de Cabo Verde. Essas estruturas, inicialmente promovidas como parte de uma “cidade do futuro”, tornam-se metáforas de uma identidade cabo-verdiana fragmentada por modelos externos. As imagens remetem à estética da escola New Topographics, um grupo de fotógrafos paisagísticos de maioria estadunidense, que se reuniram na década de 1970 em Nova York, cujas obras exploravam espaços desoladores criados pelo homem e evocava uma sensação de estranhamento. No entanto, ao contrário das ruínas abandonadas, as imagens de Schofield Cardoso, que retratam prédios habitados, geram desconforto devido à sua aparência monolítica e enquadramento claustrofóbico, refletindo a fragmentação social em Cabo Verde.

Esses espaços liminares sugerem uma população presa entre uma elite desconectada e modelos identitários importados, moldados por forças externas. A fotografia de Schofield Cardoso destaca a incerteza ontológica dessa sociedade fraturada, revelando as ruínas das aspirações individuais criadas pelo modernismo ocidental e pela governamentalidade neoliberal. A “relutância” presente no título da série e nos próprios edifícios reflete uma hesitação mais ampla na definição de uma identidade nacional unificada.

Assim, Schofield Cardoso nos desafia a lidar com as histórias fragmentadas e os futuros incertos que moldam a sociedade cabo-verdiana. Ao destacar contradições e incentivar a reflexão crítica sem oferecer respostas fáceis, sua obra convida a um processo dialógico, provocando tanto uma introspecção pessoal quanto uma reflexão coletiva sobre as complexidades da identidade cabo-verdiana em um mundo pós-colonial e globalizado.

 

Este texto é uma versão resumida de Dialogical Art: Cartographies of Memory and Affection in the work of César Schofield Cardoso, publicado no livro Atlantica: Contemporary Art from Cabo Verde, Guinea Bissau, São Tomé and Príncipe and Their Diasporas, Archive Books, 2021.

Ana Nolasco possui pós-doutorado em arte e design pela IADE – Universidade Europeia. Ela é doutora e mestra em Estética e Filosofia da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, além de graduada em Belas Artes – Pintura, pela Faculdade de Belas Artes da mesma universidade. Atualmente, leciona Teoria da Arte na Escola de Artes da Universidade de Évora e no Instituto Politécnico de Lisboa, sendo também autora de diversos livros e artigos.

Tradução: Jess Oliveira

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