C&AL: Qual é a relação dos artistas contemporâneos cubanos com o governo da ilha?
ADF: É impossível caracterizar essa relação no singular. Tem artistas que apenas são tolerados (como Sandra Ceballos), ou abertamente reprimidos (como Tania Bruguera). Alguns, como Luis Manuel Otero Alcántara, não são sequer reconhecidos como artistas por parte das autoridades culturais. Tristemente, a promulgação do Decreto 349 de 2018 dá novas bases jurídicas à censura e representa um assalto, burocrático e retrógrado, à liberdade criativa. Mas muitos outros artistas desenvolveram estratégias para driblar a censura e os burocratas (que frequentemente são as mesmas pessoas).
C&AL: Como se desenvolveram as dinâmicas raciais na ilha nos últimos anos e, em relação a isso, qual o reflexo na arte contemporânea cubana?
ADF: As desigualdades raciais cresceram significativamente em Cuba durante as últimas duas décadas, em parte porque as remessas familiares que financiam o setor privado cubano provêm de uma comunidade majoritariamente branca. Este setor abriga práticas de emprego abertamente racistas. É só ler anúncios de trabalho, em que pessoas brancas são favorecidas de forma descarada. Mas também existem carências importantes na atenção pública quanto ao tema. Concordo com o bailarino de renome Carlos Acosta – uma glória da cultura cubana –, quando diz que não houve debates profundos sobre o assunto, um tema que continua sendo incômodo para muitos cubanos, especialmente para as autoridades. Vozes não faltam. O que falta são plataformas, especialmente espaços que envolvam o governo. Como disse o intelectual e ativista Tomás Fernández Robaina, o problema não é silêncio. O problema é “a surdez”.
C&AL: Como estão representados os afro-cubanos na cena artística contemporânea?
ADF: Acredito ser uma disputa constante. Há artistas afro-cubanos como Manuel Mendive que, depois de muitos anos de trabalho sério, conseguiram cavar um espaço permanente em galerias e instituições, mas isso é fruto de muito empenho. Muita gente se esquece de que em um certo ponto de sua carreira Maldive enfrentou grandes obstáculos para expor em Cuba. Há curadores e críticos que persistem em articular uma visão eurocêntrica e branca da cultura cubana. Mas ao mesmo tempo quero destacar, e celebrar, que nos últimos anos o Museu Nacional de Belas Artes de Cuba acolheu duas exposições importantes – Sin máscaras, com curadoria de Orlando Hernández (2017), e Nada personal, com curadoria de Roberto Cobas (2019) – que tocam em temas de etnia e identidade em Cuba.
C&AL: Como é a recepção da arte cubana nos Estados Unidos atualmente?
ADF: Sinto que o público estadunidense continua querendo conhecer mais da arte cubana e que esse interesse já ultrapassa um período inicial marcado pelo exótico e pelo proibido. Estamos transitando mais na direção de um interesse mais sustentado por parte de colecionadores, museus e galerias. Os leilões de arte contemporânea ilustram esse interesse. Mas também minha própria experiência expositiva. Nos últimos anos, as exposições que organizei (Queloides, Drapetomanía e agora Diago) passaram por São Francisco, Chicago, Pittsburgh, Nova York, Filadélfia, Boston e Miami. Agora mesmo, o Lowe Art Museum da Universidade de Miami está expondo não só a retrospectiva de Diago mas também uma mostra de outro artista cubano de destaque chamado Carlos Estévez.