Espaços de arte

Por que criar galerias de arte de e para não branques?

HOA e Diáspora Galeria são duas galerias brasileiras criadas por e dedicadas a pessoas de origem asiática, negra e indígena. Elas não somente têm o objetivo de criar espaços comerciais para vender arte de artistas desfavorecides pela hegemonia branca, mas também o de fomentar a solidariedade antirracista.

Genocídio cultural e castração da produção artística

A artista informa que a dinâmica da HOA, que tem unidade também em Londres, é totalmente atrelada ao fato de que grande parte do plano político de genocídio cultural da população preta e indígena no Brasil está relacionado à castração da produção artística desses grupos através da expropriação simultânea à inacessibilidade. “Quando se elitiza, dentro de um circuito social, as ferramentas práticas, espaciais e intelectuais do produzir arte, perdemos o direito à circulação, transmissão e memória, simplesmente porque, na maioria das realidades, não existem meios de concebê-los enquanto documento, enquanto retrato de uma expressão, pensamento, tempo ou geração. Isso, quando contínuo e vicioso, é fatal às nossas e às futuras ancestralidades”.

A existência da HOA, enquanto residência, segundo ela, sempre foi sonho e a ideia de pleitear gerações de artistas, apoiar movimentos e confrontar formas de organização universalistas baseadas em dogmas acadêmicos. A artista lembra a dívida histórica do Brasil com as populações negra e indígena e diz que uma galeria racializada não é apenas para inserção no mercado, mas para qualquer parâmetro básico de qualidade de vida.

“As pessoas precisam entender que desenvolver artistas em situação de vulnerabilidade vai muito além da conhecida vaidade artístico-burguesa do reconhecimento entre elites e iconografias estáticas,” diz Ayedun. “Nós precisamos parar de acreditar na seita do sucesso e entendermos que o nosso desenvolvimento está atrelado a um processo de cura das violências sociais que nos assolam há gerações”.

Pouca representatividade e diversidade racial

No ano anterior à criação da HOA, um outro projeto também com propósito de dar visibilidade à produção de artistas racializados surgia em São Paulo. Em visitas a feiras de arte e vernissages, o gestor cultural Alex Tso, filho de migrantes chineses, percebia pouca representatividade e diversidade racial.

Atento a questões do preconceito e exclusão nesses espaços e em contato com pautas dos movimentos negros e indígenas e de asiáticos progressistas, ele decidiu propor algo que contornasse a dificuldade de inserção e visibilidade.

No final de 2019, lançou uma convocatória pública para formar o elenco inaugural de uma galeria, cujo único critério era que os interessados fossem artistas racializados. Em um mês, houve 150 inscritos. Assim nasceu a Diáspora Galeria, que reúne artistas e curadores de origem asiática, negra e indígena.

“A Diáspora é integralmente atuante tendo como prerrogativa a solidariedade antirracista e o entendimento de união e luta conjunta, como forma de fortalecimento político e social para lidar com o status quo de preconceito e exclusão”, disse Tso à C&AL. Segundo ele, a ideia era pensar as dinâmicas raciais do país e os valores e ideais que promovem os corpos brancos como hegemônicos e criam divisionismo entre as outras raças minorizadas.

“Tendo em mente que era necessária uma transformação estrutural do sistema da arte e do mercado da arte, uma das premissas-base do projeto da Diáspora Galeria era fomentar uma articulação colaborativa de pessoas racializadas em toda a rede produtiva. Ou seja, não apenas o elenco de artistas serem não-branques, mas também equipe e parceiros estratégicos também terem vivências racializadas”, acrescentou.

Mudanças de ordem estruturais

Tso diz que entender que as mudanças são de ordem estrutural e sistêmica é um dos trunfos que garantem a legitimidade e o apoio da comunidade artística à galeria. “Por isso, não nos limitamos a ver nossa atuação como um projeto comercial apenas, mas sim como um movimento engajado de discussão e proposição de novas maneiras de se articular e se organizar”, pontuou.

O gestor cultural destacou também a necessidade de criar solo fértil para que essa transação, que não é só financeira, mas também simbólica e discursiva, seja a base para que a democracia cultural chegue no sistema de arte como um todo.

Os objetivos iniciais, segundo ele, estão sendo alcançados. “A institucionalização da pauta de equidade racial no sistema das artes já é uma realidade incontornável para galerias e museus que querem participar na construção do circuito contemporâneo de arte”, diz.

 

Fábia Prates é jornalista com passagem por grandes veículos brasileiros. Atualmente escreve sobre temas relacionados a cultura, comportamento e comunicação corporativa.

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