Conversa com Castiel Vitorino

“O trauma é brasileiro”

Em entrevista à curadora Diane Lima, a artista Castiel Vitorino Brasileiro fala sobre sua primeira exposição individual e reflete sobre as complexidades de viver sua Diáspora negra.

C&AL: Em alguns textos, você diz que a vida é uma questão de cura e que, quando desejou continuar viva, se tornou curandeira. Como macumba e psicologia se tornaram uma encruzilhada na sua produção artística? 

CV: A macumba e a psicologia são, assim como a arte, manipulação de energia vital. A encruzilhada sempre esteve formada, mas, em algum momento, pude assumi-la como campo de força. Esse momento foi durante um tempo de cura que iniciei depois de ter um pensamento suicida, ou seja, um desejo do esquecimento e não da metamorfose. No terreiro, meu corpo é veículo e propositor de diálogos assim como na clínica e na arte.  E, sendo minha prática artística uma experiência de incorporação, a macumbaria e a psicologia comparecem como outros caminhos possíveis dessas experiências de corpo e, juntas, formam a complexidade existencial com a qual vivo minha Diáspora negra.

C&AL: Tenho pensando o quanto as palavras e os discursos não dão conta de nomear e dizer sobre as violências que sofrem nossos corpos dissidentes e racializados, inviabilizando ora nossa permanência física, ora nossa vitalidade neste mundo. O que acontece quando esse corpo começa a envelhecer e quais estratégias de autopreservação podemos adotar?

CV: A contrariedade a esses saberes se dá enquanto acolhemos e respeitamos nosso tempo singular: o tempo do sorriso, do choro, do prazer, da gastrite. O envelhecimento acontece enquanto estamos sendo geridas no útero. A autopreservação acontece quando entendemos que a modificação também é proliferação de novos modos de viver. Minha avó Julite diz que, quando envelhecemos, vamos diminuindo de tamanho, e só voltamos a crescer quando morremos. Veja, a vida se faz como uma sanfona: contrair e expandir. O quarto de cura de cada pessoa existirá enquanto houver a possibilidade de sair e entrar, ir e voltar, abrir e fechar, contrair e expandir nossa vitalidade. A contrariedade está aí, na experiência exusiática de movimentação, rodopio, caminhos impossíveis. Somos contrárias e contraditórias quando vivemos aquilo que é impossível ao colonizador. E o que tem sido esse impossível e incompreendido: nossa liberdade. Afirmar liberdade, sendo meu corpo racializado, já é uma atitude de contrariedade, pois a liberdade para corpos negros tem sido negada ao mesmo tempo em que tem se produzido uma experiência de encruzilhada. Aqui – em nosso corpo-encruzilhada – assumimos caminhos possíveis e impossíveis, numa dinâmica de negociação com as vidas que nos curam e com aquelas que nos querem aniquilar.

C&AL: Citando Seloua Luste Boulbina e seu pensamento sobre desorientação como forma de nos livrarmos de uma geografia mental colonial: como, a partir da sua experiência, você tem criado estratégias para se desorientar do mundo tal como conhecemos e acessar o que vem chamando de “saberes tradicionais de manipulação vital”? 

CV: É um exercício de coragem, que faço sempre que consigo equilibrar minha insegurança com minha coragem. Sim, é uma desorientação que tem sido nomeada como loucura ou possessão diabólica. Quando desejo viver em felicidade, crio mundos. Não só crio, como passo a habitá-los. É um território existencial que cria limites ao colonizador. Por isso, torno-me desorientada, maluca e perigosa, pois passo a ser uma vida incompreendida. Quando afirmo cura, desoriento-me dos saberes filosóficos ocidentais que são coloniais na medida em que se afirmam universais. A cura é uma experiência produzida e compreendida por benzendeiras, curandeiras e rezadeiras: justamente pessoas que as indústrias neoliberais farmacêutica e médica criminalizam e o fundamentalismo cristão torna pecaminosas. Essas indústrias e filosofias não entendem nosso linguajar e, no fetiche colonial de tentar compreender, acontecem roubos. Então, me desoriento sempre que me curo. E a cura é uma experiência efêmera de saúde. E saúde são equilíbrios vitais.

C&AL: Vemos, na sua produção, a mobilização de diferentes linguagens como a fotografia, o vídeo, a instalação, a performance e a escultura com a produção de objetos em cerâmica ou materialidades orgânicas. Como tem se dado o processo de experimentação e criação do ponto de vista da forma? E como você acredita que esses procedimentos nos ajudam a falar sobre uma ética anticolonial na arte?

CV: Toda forma é um gesto. Eu desejo desaprender gestos coloniais e gozo quando consigo desaprendê-los em gestualidades de liberdades. Meu corpo é uma materialidade em modificação perpétua, minha existência assume formas que ontem não imaginava ou das quais tinha medo. Hoje, reelaboro em minhas obras essas formas imaginadas e corporificadas. A arte para mim é um convite a desaprender gestos que produzem formas que estacionam meu movimento de diferenciação. Desejo e preciso assumir e compreender as linguagens artísticas como experiências de mergulho, nunca de afogamento. Mergulho em minha vida com o vídeo ou com a instalação de modo estratégico, de acordo com a profundidade existencial que desejo compartilhar com quem está na superfície.

http://amlatina.contemporaryand.com/events/o-trauma-e-brasileiro/​


Castiel Vitorino Brasileiro. Artista, graduanda em Psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo, pesquisa e inventa relações em que corpos não-brancos se desprendem das amarras da colonialidade. Idealizadora do projeto de imersão em processos criativos decoloniais Devorações.     

Diane Lima é curadora independente e pesquisadora. Mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, seu trabalho concentra-se em experimentar práticas curatoriais multidisciplinares em perspectiva decolonial.

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