Espaço arcaico, arquitetura moderna e arte contemporânea

Arquitetura indígena nas Américas

Os europeus foram influenciados pela sabedoria dos indígenas americanos de diversas formas, às vezes inesperadas – entre elas, a arte da construção. A exposição Pacha, Llaqta, Wasichay: Indigenous Space, Modern Architecture, New Art (Pacha, Llaqta, Wasichay: espaço indígena, arquitetura moderna e arte nova), no Whitney Museum of American Art, em Nova York, investiga esse legado. Brandon Sward visitou a exposição para a Contemporary And (C&) América Latina.

A exposição reúne sete artistas residentes nos Estados Unidos e em Porto Rico no início e meio de suas carreiras, e em cujas obras estão presentes os ecos da indigenidade na arquitetura contemporânea. Tomemos algo como os esportes considerados estipicamente norte-americanos, como o basquetebol ou o raquetebol, “inventados” respectivamente em 1891 pelo dr. James Naismith e em 1959 por Joseph Sobek. Esses jogos stêm um precursor arcaico,ã o ulama, o mais antigo jogo conhecido envolvendo uma bola de borracha (arqueólogos descobriram em escavações bolas que datam pelo menos do ano 1.600 a.C.). Apesar de não termos conhecimentos sobre as regras exatas desse jogo, existem registros de quadras estreitas e compridas (taste) com linhas desenhadas a giz, divididas em lados opostos por uma linha central (analco). Qualquer pessoa que já tenha ido a um ginásio com certeza conhece o cenário. Numa série de obras que incluem ULAMA-ULE-ALLEY OOP (2017), o artista equatoriano Ronny Quevedo mostra a similaridade dessas quadras esportivas ãcom suas descendentes contemporâneas, desestabilizando assim o suposto caráter de exclusividade da cultura norte-americana.

Enquanto algumas dessas heranças da era pré-colombiana são inconscientes ou até mesmo acidentais, outras são bem propositais, como no caso de várias formas de arquitetura de “revival” no sudoeste dos Estados Unidos. Quando essa região buscou uma identidade arquitetônica distinta no início do século 20, os projetistas voltaram sua atenção para o passado da região e as grandes construções executadas pelos povos indígenas. Essa tendência alcançou um ápice arquitetônico na época, influenciando arquitetos famosos como Frank Lloyd Wright, cuja construção Hollyhock House, em East Hollywood, Los Angeles, afazia parte do “revival” maia.

Naturalmente essas construções só stomavam emprestada a estética das culturas dizimadas quando da chegada dos europeus ao “Novo Mundo”. Embora várias características das construções centro-americanas constituíssem adaptações específicas às técnicas, materiais e crenças dos povos indígenas, elas ficaram desprovidas de significado nas mãos de arquitetos como Wright, feitas para servir propósitos meramente decorativos. Em seu vídeo Ch’u Mayaa, a artista brasileira Clarissa Tossin colabora com a performer Crystal Sepúlveda para reviver a herança encoberta. O título da peça se refere ao “azul Maia”, um dos pigmentos mais resistentes da cerâmica Maia, frequentemente o último a perdurar nesses artefatos. Tal como essa cor, os indígenas perduram em nossa cultura, mesmo que não reconheçamos isso.

Mas, em outras épocas, ficamos ansiosos por desvendar o passado, como na ocasião em que o governo mexicano realocou a escultura gigante de Tlāloc, o deus asteca da chuva, para o Museu Nacional de Antropologia, em 1964. Enquanto a arquitetura modernista do prédio se insere no futuro, a escultura primordial aponta para o passado, em uma metáfora perfeita da disciplina da antropologia, que inicialmente buscava estudar cientificamente as “culturas primitivas”.

De modo parecido com o caso da Hollyhock House, vemos novamente uma cultura decorando a si mesma com a outra, ignorando os significados religiosos que Tlāloc tinha e continua a ter para os povos indígenas. A artista mexicana Claudia Peña Salinas investigou o destino do monolito de Tlāloc durante algum tempo e contribuiu com um trio de esculturas, incluindo Cueyatl (2017), que vislumbra Tlālōcān, um paraíso governado conjuntamente por Tlāloc e Chalchiuhtlicue, a deusa asteca da água. Os títulos das peças são vários amálgamas dos dois nomes, deconstruídos e reunidos novamente, da mesma forma que o governo mexicano desarraigou e replantou o monumento a Tlāloc.

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