O abecedário de Dalton Paula

Da África para a Bahia e, claro, Cuba

O artista brasileiro Dalton Paula fala sobre seu interesse por desenho, história negra, performance, botânica, bem como pelas práticas religiosas afro-brasileiras.

C&: Você veio a São Paulo para fazer uma residência no ateliê de Rosana Paulino, artista fundamental para entendermos a presença negra na arte contemporânea. Como foi essa experiência?

DP: Rosana Paulino, além de ser importante para o campo da arte contemporânea brasileira, tem um compromisso com a educação, pois está sempre orientando, formando novos artistas. Eu sou um desses alunos e a mão de Rosana Paulino foi fundamental para lapidar meu trabalho. Em 2007, enviei um email pedindo ajuda e mais informações sobre a obra dela, e Rosana prontamente me respondeu, me acolheu e tem sido uma grande incentivadora. A residência no ateliê foi um desdobramento desse processo, que já vinha acontecendo de maneira indireta, com conversas sobre a apresentação do trabalho (portfólio), os materiais utilizados, a coerência entre a ideia e a proposta visual, além de indicações de leituras, escritos de artistas e outras referências. Também a necessidade de desenvolver a prática do desenho, como o caderno de artista, foi uma das principais orientações dela. Isso possibilita fazer repetidas experimentações, fotografar os testes e arquivar para comparar com produções posteriores, assim todo esse exercício tem me ajudado muito, especialmente a desenvolver o desenho e também a pintura.

C&: Como a sua biografia e sua experiência social aparecem em suas obras?

DP: A minha história e experiência como um homem negro perpassa minha obra,
às vezes, de forma direta, quando assumo esse personagem-corpo que se coloca nos espaços urbanos, ou assume o movimento, a ação como no vídeo O batedor de bolsa de 2011; mas isso também é trabalhado de forma indireta, como uma espécie de jogo, que brinca com o preestabelecido, lança mão da arte da mandinga, se aproxima, se esquiva, se impõe.

C&: O artista Divino Sobral em “Dalton Paula e a arte de amansar senhores”, com acerto olha para sua relação de enfrentamento com o espaço público, quando você se coloca em situação ritualística. Diga-nos o que esse interesse pelo ritual tem a ver com seu trabalho Rota do fumo?

DP: Na apresentação das perfomances, há uma metáfora do corpo como meio, como veículo, semelhante aos cultos afro-brasileiros nos quais as divindades incorporam no corpo de seus filhos e filhas. Essa dinâmica ritualística dá forma ao meu trabalho artístico, e mesmo implicitamente, a espiritualidade rege a construção dos personagens, determina a potência desse corpo. Dessa maneira, com o propósito de alcançar outras camadas de sentido(s) que estão silenciadas ou habitam o universo do segredo, do mágico, do encantamento, é que exploro o tema do ritual neste trabalho. Abordar isso me dá a possibilidade de mostrar que se trata de uma planta ritualística, com potencialidades mágicas e amplamente utilizada nas culturas indígenas e nos cultos de matriz africana. Geralmente, esses usos e saberes se desenvolvem nas aldeias, nos terreiros e quilombos, e essa dimensão espacial muito me interessa. Essa ação de criar espacialidades e formas específicas de conhecimento é uma ação política, uma estratégia de defesa, de sobrevivência, que permanece e se transforma constantemente.

C&: Fale um pouco mais sobre sua ida a Cuba e à Bahia, como parte da concepção de Rota do fumo?

DP: O interesse por Cuba está nesse lugar que recebeu a Diáspora africana e as formas sociais e culturais negro-cubanas ali elaboradas; também as semelhanças com relação ao modelo de produção, como por exemplo, o cultivo da cana-de-açúcar e do fumo; e também as diferenças como o regime político. Eu me interesso por esse lugar que produz o charuto mais famoso do mundo e os diversos usos do tabaco, inclusive no universo religioso da santeria. Já a Bahia sempre chamou minha atenção, especialmente por possuir a maior população negra fora do continente africano, e também por que há o cultivo de fumo e a produção de charutos, historicamente relevante para a economia da região. Por isso, me interesso em pensar como essa população negra atuou como mão de obra escravizada nesse sistema produtivo, mas não apenas isso, como também foi e é capaz de manter, reelaborar suas práticas culturais e artísticas, suas religiosidades em condições ainda tão adversas.

C&: Em Rota do fumo, você demonstra grande interesse pela história pregressa do país, olhando para o processo de subalternização das populações negras e indígenas, mas também consegue demonstrar uma compreensão de processos mais complexos de resistência como o uso das plantas. Fale mais sobre sua pesquisa em torno do sagrado, muitas vezes necessário, cotidiano?

DP: Lanço um olhar sobre o passado histórico para compreender melhor como
as relações de poder e, principalmente, o processo de escravização incide sobre o que vivenciamos no presente, o que me permite vislumbrar alguns questionamentos e apontamentos para o futuro. Essa pesquisa histórica, que também utiliza outras referências, como a botânica e as religiosidades afro-brasileiras e indígenas, transita pela história oficial, mas tem foco nos anônimos, nas histórias e narrativas que normalmente são desconsideradas. Nelas, eu encontro o sagrado em sua dimensão cotidiana, compreendido como resistência porque é indissociável da vida, da natureza, da espacialidade em que se está inserido, é um elemento que coexiste em meio à opressão, por isso sua importância. É por meio desse sagrado, reelaborado a cada dia, que as populações negras e indígenas são capazes de sobreviver, de construir outras formas de existir, de manter sua dignidade.

 

Alexandre Araujo Bispo é antropólogo, crítico, curador independente e educador.

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