Na biblioteca

A Biblioteca Negra, Cuajinicuilapa, México

Um olhar sobre bibliotecas e coleções de livros que guardam algumas publicações raras e muitas vezes esquecidas. O destaque dessa vez é a Biblioteca Negra no México.

“Sabemos que há inúmeros trabalhos de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre a comunidade afro-mexicana. Esses estudos estão em Chicago, na Alemanha ou até mesmo no Japão, mas nada in loco na comunidade. Incontáveis pessoas notáveis, incluindo fotógrafos e antropólogos, atuaram no México, muitos estrangeiros. Em um determinado momento, eles partiram, e agora seu trabalho acontece em outros países. Eles nunca voltaram. O que estamos fazendo, então, é documentar, para criar algo concreto, ou seja, um manifesto, para que o trabalho volte. Ou para que haja sempre duas cópias e uma delas permaneça na biblioteca da aldeia, pois essa informação que está sendo disseminada é nossa. É nossa história”, Olga Manzano e Baltazar Melo

A iniciativa do grupo é incorporada no âmbito de uma prática artística que visa colocar a educação comunitária e a memória coletiva no centro de suas atividades, especialmente por meio de oficinas de pintura ou dança.

A biblioteca contém cerca de 300 volumes, muitos deles coletados através de uma chamada para doações divulgada em todo o México. As publicações incluem trabalhos acadêmicos etnográficos, resenhas de festivais e manuscritos produzidos entre o final da década de 1980 e o início dos anos 2000 por pesquisadores e autores mexicanos. A coleção mescla, em seu acervo, um número representativo de obras que testemunham a complexidade da questão racial no México, moldada por um sistema racista fundamentado em uma tradição de escravização e colonização, e as fortes conexões culturais transatlânticas com o continente africano e com outras comunidades indígenas da região.

Algumas obras podem ser acessadas online no site da universidade. A criação de um arquivo digital está atualmente em curso.

A seleção

Leyton Ovando, Rubén, Los culebreros. Medicina tradicional viva, CONACULTA, Culturas Populares e Indí-Genas (Os Curandeiros. Medicina tradicional viva, CONACULTA, Culturas populares e indígenas.)

Este livro sobre a medicina popular tradicional testemunha práticas ancestrais, antes muito comuns, em torno do culto da serpente em meio às populações indígenas e afro-mestiças do sul de Veracruz. Esta prática deu origem a um complexo código mágico-mítico-religioso em torno da relação entre o ser humano e a serpente, que tratava sacerdotes e curandeiros como as únicas pessoas autorizadas a curar picadas de cobra com ervas medicinais.

Guevara Sanginés, María, Guanajuato diverso: Sabores y sinsabores de su ser mestizo (Guanajuato diverso: Os sabores e dissabores de seu ser mestiço).

Este livro é um resumo de pesquisas realizadas a partir de 1990 sobre o papel que os afro-mexicanos escravizados e seus descendentes exercem, desde o século 16, na construção econômica e cultural da região de Guanajuato, uma das zonas de mineração mais importantes para os interesses da colonização hispânica. O livro traz uma introdução à organização social das famílias interétnicas e às implicações culturais da miscigenação afro-indígena.

Martínez Ayala, Jorge Amós, ¡Epa! Toro Prieto. Los “Toritos de Petate”. Una tradición de origen africano traída a Valladolid por los esclavos de lengua Bantú en el siglo XVI (Epa! Toro Preto. Os “Tourinhos de Petate”. Uma tradição de origem africana trazida a Valladolid por escravizados de língua bantu no século 16).

Esta é uma das únicas publicações existentes sobre o “Tourito de Petate”, a tradição Michoacán celebrada todos os anos durante o Carnaval. Esta dança do touro tem suas origens nos ritos praticados por pessoas escravizadas de língua bantu trazidas de Angola, Congo e Moçambique entre os anos de 1580 e 1640. A publicação é também complementada por um documentário: Ecos del Torito de Petate en Cuitzeo. No filme, vários especialistas opinam sobre a dança que mudou muito ao longo dos anos, tendo assumido vários significados.

Cruz Carretero, Sagrario, Martínez Maranto, Alfredo, et al., El carnaval en Yanga. Notas e comentários sobre uma fiesta da negritude (O Carnaval em Yanga. Notas e comentários sobre um festival da negritude).

Este pequeno livreto de 47 páginas, datado dos anos 1990, documenta a sobrevivência de décadas do Carnaval de Yanga, que reivindica a herança africana dos habitantes dessa cidade do estado de Veracruz, lembrando as conquistas política, legal e social dos antepassados afro-mexicanos que fundaram a primeira cidade negra livre na América colonial. A celebração ainda é realizada em agosto, em memória de San Lorenzo de Los Negros, um escravizado quilombola que criou as plantações de cana e usinas de açúcar da região.

Ochoa Campos, Moisés, La chilena guerrerense (A Chilena Guerreense).

Publicado pelo Instituto Cultural Guerrero no final da década de 1980, esse trabalho documenta a origem da dança “chilena”, na forma como é praticada no estado de Guerrero. Levados à Costa Chica, no século 16, por marinheiros chilenos, os ritmos de harpas e bandolins testemunham a fusão da música chilena cueca com a dança e o canto afro-mexicanos, além dos numerosos movimentos migratórios ao longo da costa mexicana nos últimos dois séculos.

A Organização Raiz de la Ceiba é dedicada à conservação e ao reconhecimento da cultura negra da Costa Chica, localizada nos estados mexicanos de Guerrero e Oaxaca, bem como à melhoria do meio ambiente de suas comunidades. Sua fundadora, Olga Manzano, é uma assistente social mexicana que vive em Guerrero. Ela é doutoranda em Antropologia pela Universidade de Valência. Sua pesquisa concentra-se em novas formas de abordar didaticamente comunidades e na integração do espaço público em seu cotidiano. Consultas sobre doação de livros podem ser enviadas para raizdelaceiba2013@gmail.com

Baltazar Castellano Melo é um artista visual e plástico afro-mexicano natural de Cuajinicuilapa. Seu trabalho é dedicado a mostrar a riqueza cultural de sua comunidade.

Serine Ahefa Mekoun é uma escritora e jornalista multimídia que trabalha entre Bruxelas e a África Ocidental. Ela escreve a respeito das comunidades de artistas e sobre como elas ativam a mudança social em contextos pós-coloniais.

Tradução: Soraia Vilela

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